Anukis

EstóriasJune 3, 2008 1:57 pm

Ela gostava de escrever. Não. Ela vivia para escrever. Sim. A escrita nela era compulsiva. Desde que se lembrava de ser gente que rabiscava em cadernos. Quando chegou a era da internet, começou a escrever em foruns e depois em blogues. Escrevia e gostava. Publicava. Escrevia e detestava. Apagava tudo. Sem olhar para trás. Matava os blogues como quem quer matar mágoas passadas.

Sabia que escrevia bem como, certos dias, as palavras tropeçavam no ecran em desalinho. Era lida e ficava feliz. Era comentada e ficava contente. Às vezes, criavam-se laços entre ela e os outros, por afinidade, por experiências pessoais, que se repetiam invariavelmente na vida de outras pessoas como se estivessem escritas nas páginas dum mesmo livro. Quando apagava, magoava as pessoas. Sentiam-se abandonadas, traídas, quando encaravam o vazio, onde antes havia ligações…

Prometeu não apagar. Não apagou. Quis desistir. Desistiu. Mas continuaram a vir, a ler. Ficaram à espera. Amaldiçoou-se de não ter apagado. Também ela tinha ligações afectivas a esses olhares, que passavam pelas suas palavras. Capitulou. Ela decidiu voltar. Devagar, devagarinho…

Geral 1:57 pm

Ando sem vontade de ser anukis…
Volto quando chegarem melhores dias.

Estórias 1:56 pm

Ele não gostava de ver as palavras escritas pela mão de quem tinha criado o livro. As palavras mentem. Preferia ouvir as palavras na sua mente, enquanto lidas. Às vezes, entoavam como o gongo da Fortuna de Carl Orff. Outras vezes, bailavam de mãos dadas, ligadas, encadeadas…

Ela gostava de ver as palavras manuscritas. Brincava com as curvas, com as pernas finais enroladas. As palavras mentem. E ela sabia-o bem. Mentiam por cobardia quando não se assumiam. Enganavam quando tentavam seduzir sem mesmo o querer.

Eles viviam de afectos que também eram palavras. Discursos trocados entre olhares. Diálogos entre mãos que se tocam. Estórias que se criam entre perfumes. Romances que os corpos escrevem sobre a nudez, página branca do erotismo.

As palavras mentem, nem sempre escritas, nem sempre ditas, nem sempre trocadas.

As palavras mentem quando os afectos também mentem…

Estórias 1:55 pm

Ela coleccionava abandonos
como alguns coleccionam porta-chaves.
Ele juntava lágrimas numa caixinha
como outros juntam fotografias para um album.
Ela recolhia amarguras
como certas pessoas recolhem cartões
caídos à porta das lojas.
Ele acumulava desilusões
como alguém acumula dinheiro num cofre-forte.

Conheceram-se,
um dia, numa feira de trocas
e decidiram deitar fora o supérfluo,
ficar apenas com o etéreo…

DevaneiosMay 19, 2008 12:45 pm

Por vezes, fico perdida em devaneios. Parecem passos em labirinto cerrado. Andam todos à tua volta e não consigo encontrar a saída.
De sentidos despertos, sinto-te chegar por trás. Levantas-me o cabelo para me beijar levemente o pescoço. As tuas mãos começam a massagem lenta nos ombros.
Não me apetece virar. Sei que és tu. Olho para o céu e nem me importo com a chuva que cai no meu rosto. Fecho os olhos. Já não sinto a roupa fria sobre o corpo. Estás aí. Desejas-me e isso basta-me. Não queiras mais nada. Deixa apenas fruir o momento.
Abro os olhos. Em fumo, se desfaz o labirinto. À minha frente, aguardo sensações no caminho…

Prosa poéticaMay 11, 2008 8:46 pm

Acordar ameno.
Neurónios leves.
Pensamentos soltos.
Perfume na alma.
Cabeça envolta em sol.
Sentidos despertos.
Corpo vivo.
Dia sim.