Ela gostava de escrever. Não. Ela vivia para escrever. Sim. A escrita nela era compulsiva. Desde que se lembrava de ser gente que rabiscava em cadernos. Quando chegou a era da internet, começou a escrever em foruns e depois em blogues. Escrevia e gostava. Publicava. Escrevia e detestava. Apagava tudo. Sem olhar para trás. Matava os blogues como quem quer matar mágoas passadas.

Sabia que escrevia bem como, certos dias, as palavras tropeçavam no ecran em desalinho. Era lida e ficava feliz. Era comentada e ficava contente. Às vezes, criavam-se laços entre ela e os outros, por afinidade, por experiências pessoais, que se repetiam invariavelmente na vida de outras pessoas como se estivessem escritas nas páginas dum mesmo livro. Quando apagava, magoava as pessoas. Sentiam-se abandonadas, traídas, quando encaravam o vazio, onde antes havia ligações…

Prometeu não apagar. Não apagou. Quis desistir. Desistiu. Mas continuaram a vir, a ler. Ficaram à espera. Amaldiçoou-se de não ter apagado. Também ela tinha ligações afectivas a esses olhares, que passavam pelas suas palavras. Capitulou. Ela decidiu voltar. Devagar, devagarinho…