Ele não gostava de ver as palavras escritas pela mão de quem tinha criado o livro. As palavras mentem. Preferia ouvir as palavras na sua mente, enquanto lidas. Às vezes, entoavam como o gongo da Fortuna de Carl Orff. Outras vezes, bailavam de mãos dadas, ligadas, encadeadas…
Ela gostava de ver as palavras manuscritas. Brincava com as curvas, com as pernas finais enroladas. As palavras mentem. E ela sabia-o bem. Mentiam por cobardia quando não se assumiam. Enganavam quando tentavam seduzir sem mesmo o querer.
Eles viviam de afectos que também eram palavras. Discursos trocados entre olhares. Diálogos entre mãos que se tocam. Estórias que se criam entre perfumes. Romances que os corpos escrevem sobre a nudez, página branca do erotismo.
As palavras mentem, nem sempre escritas, nem sempre ditas, nem sempre trocadas.
As palavras mentem quando os afectos também mentem…
